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a diferença em mim vista por vós, é a mesma por mim vista em vós.

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Terça-feira, 3 de Outubro de 2006

um dia de manhã

 
É de manhã e dói-me a cabeça como nunca me doeu. Desbravo a estrada a conduzir pensamentos que por defeito nascem tortos. Pelo caminho deixo que as árvores me observem nas filas em que paro distante do outro veículo e meço uma medida de segurança que não pertence ao corpo mas à mente. 
As árvores seguem-me mas não me lembro de nenhuma em especial, só sei que são árvores iguais às que tenho em ideias e quase iguais àquelas tu agora também imaginas. 
Continuo com dores de cabeça e nem o verde dos semáforos me alivia o stress.  
Entro mais adentro da estrada quando à frente acordo na visão do corpo, um corpo deitado nos paralelos e cheio de sangue. Foi o meu corpo que o viu em primeiro lugar e em segundo lugar a minha mente. Que me faz parar todos os pensamentos. E as minhas arvores também param, com o meu automóvel. 
As pernas saltam fora do carro e levam o corpo para outro frio mais frio que o da chauffage ainda fria. Mas a mente é que as manda.
É na pressa de socorrer quem de mim precisa que a dor da minha cabeça corre comigo. Com curiosidade de ver outra dor que não a minha. Queremos ver uma dor com sangue; algo que se possa imediatamente chamar dor. Enquanto isso, a dor que tem a minha mente suspeita que a dor da outra pessoa é maior do que a dela, mas não deixando, a dela, de ser dor na mesma. Só não é igual à minha, mas a minha dor também é dor, lembra-me ao mesmo tempo o meu corpo de carne e ossos. 
Na mão sacode-se o tilintar das chaves, a carteira não fala mas toca no joelho. Numa corrida de galgo e coelho, adianta-se às pernas e passa à frente do nariz. É quando a vejo. Todos vamos para junto da dor da senhora que, atropelada, está deitada na cama de pedra dura, em cima de uma poça de sangue já morto. 
- Que ninguém lhe toque! Falo mais alto que os barulhos de que me recordo.
Somos quatro: um homem que atropelou a mulher, a mulher atropelada, outra mulher, e eu. Mas as dores também olham para mim. Na verdade, sinto a minha dor quase caída por terra e, à dor da mulher, sinto-a intimidada, no sangue vermelho e depois mais escuro, quase negro. Que pára nas minhas mãos, molhando-as dolorosamente 
- Minha querida diga-me como se chama! - Pergunto à mulher da maior dor. 
- mhmhmh mariiiiia zmzmzmzm - Balbucia ela. 
- Minha querida Maria, fique quieta! - Digo-lhe eu, e quase que digo - também tu, dor, fica quieta. Porém, não o faço. Quando observo os outros seres, estes continuam brancos e mais mortos que as folhas das arvores que passam junto aos meus joelhos, quentes no sangue de uma outra dor. 
Logo depois chega a polícia e a ambulância e a Maria e a sua dor vão-se embora, sem que falemos mais de como é a sua dor e como é a minha dor, e se sentimos as duas as mesmas perturbações, os mesmos sintomas, ou se, no fundo, as dores são todas diferentes, tal como as queixas, mas iguais no conhecimento comum. Através de ideias que cada um tem. Como quando pensamos nas árvores.
 
 
 
 
Ana Mª Costa
 
 
 
 

escrito por A.fe às 15:17

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8 comentários:
De Francisco Sobreira a 3 de Outubro de 2006 às 21:00
Muito bem, Ana. Foi sempre o meu desejo ver um texto teu em prosa. E mostras que tens talento, como o tens para a poesia. Assim, que outros venham. Um beijo afetuoso.


De auréllio a 4 de Outubro de 2006 às 23:11
puxa esse texto é forte... é um dos mais forte verbalmente que li seu.. eu gostei... até mais..


De Miguel Gomes a 9 de Outubro de 2006 às 17:00
Muito bom texto, gostei mesmo muito!

Fica bem,
Miguel


De NIGHTWOLF a 9 de Outubro de 2006 às 17:39
Gostei de te ler apesar de retratar uma situação complicada, beijinhos*


De soaresesilva a 10 de Outubro de 2006 às 15:46
Acho muito bem escrito este texto, que tão bem retrata a nossa incapacidade para avaliar a dor dos outros que por nós passam. Poder-se-á um dia medir a dor? Compará-la com a nossa? Podermos dizer:"tenham pena de mim porque eu tenho a maior dor do mundo" ?


De Maria Papoila a 11 de Outubro de 2006 às 12:49
Olá Ana Maria:
Adorei esta tua prosa! Vou plagiar-te "Isto é carne da que eu gosto." Beijo


De António a 11 de Outubro de 2006 às 12:56
Querida Ana Maria!
Surpreendeste-me com uma prosa de invulgar intensidade e de construção com palavras jogadas de forma cuidadosa.
Penso que se trata de um caso verídico.
Mesmo que não o seja, fica a teu favor a imaginação para abordar este tema.
É por isso que eu digo que gosto mais de prosa!
ah ah ah
Obrigado pela visita.
Estou triste por que não estou a ter o número de comentários que esperava.
Por isso vou aumentar o intervalo entre postagens.
Enfim...

Beijinhos


De Jofre Alves a 13 de Outubro de 2006 às 06:06
Passei para ver esta agradável e interessante página, onde me delicio nesta madrugada, e também para desejar bom fim-de-semana. Prosa fina e elegante.


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